ENTREVISTA – ZÉ GALINHA - José Irineu, mais conhecido como Zé Galinha no meio motociclístico, tanto no Ceará como em quase todo o nordeste. É uma figura única: simples e simpático. Dotado de uma habilidade sobre motos invejável e de um temperamento batalhador, pois tinha tudo para ter desistido de participar de provas e competições, mas mostrou que com humildade, talento e muita dedicação é possível realizar o impossível.
Grande Zé, prazer falar com você. Você é aqui mesmo de Fortaleza?
Não. Sou de Umirim, que é distante de Fortaleza cerca de 80 km. Morei lá até os cinco anos de idade e depois fui morar no Rio Grande do Norte, pois meu pai, que era caminhoneiro foi para lá. Ficamos por lá sete anos. Quando voltamos fomos trabalhar numa fazenda em Messejana. Tomei muito leite mugido por lá. Tinha um engenho, carregava cana. Tomei muito caldo de cana e também tinha uma granja por lá. Foi nessa época que apareceu o apelido “Zé Galinha”.
E como foi o seu primeiro contato com motos e a sua participação em competições?
A primeira vez que andei em uma moto foi em 97. Um amigo das minhas irmãs, que era Testemunha de Jeová, tinha uma novinha e perguntou se eu sabia andar. Disse que não e ele me explicou o básico: como ligar, passar as marchas e etc. Ele disse que se eu conseguisse ligar poderia dar uma volta.
Pelo menos de bicicleta você sabia andar, não?
rss. Já e nessa época andava uns 20 km quase toda a noite, pois ia ver a minha namorada que morava no Vila União. E quanto à moto demorei, mas consegui ligar, depois de muitas pedaladas, que ela pegasse. Consegui sair, mas como era uma rua sem saída e eu não sabia fazer curva, acabei voltando empurrando.
E aí qual foi a sensação?
Fiquei maravilhado. Nem dormi direito naquela noite. No dia seguinte eu tava lá de novo e ele foi muito prestativo e até me ajudou a tirar a carteira de moto. Acabamos trabalhando juntos.
Fazendo o quê?
Serviços de metalurgia.
E você aprendeu como?
Na marra, perguntando, vendo e fazendo.
E com isso conseguiu juntar dinheiro e comprar uma moto?
Não exatamente, foi um a queda de moto que me fez comprar a minha primeira moto.
Não entendi.
Tava indo para casa na moto do meu sócio e um amigo chamou para tomarmos uns chopes lá no perto do Iguatemi. Tava uma promoção de trinta e nove centavos e depois que o chope acabou passamos a tomar Campari e daí saí de lá bem “bomzin”. E na época estavam alargando a Washington Soares e pegamos um desvio. Eu ia na frente, ele na moto dele um pouco atrás. Tava muito escuro e numa curva eu escorreguei, cai e o guidão bateu no meu peito e eu fiquei sem fala. Ele passou por mim e não me viu. Foi um sufoco.
E aí?
Bom a brincadeira deu quinhentos e cinqüenta reais de prejuízo. O bom disso é que decidi comprar uma moto para mim. Minha mãe me ajudou com uma parte e eu descolei o resto com outras pessoas. Com ela trabalhei de motoboy, entregador de pizza e também como entregador de farmácia.
É tem males que vem para o bem. E como foi o seu início com as trilhas e competições?
Eu sempre passava pela oficina do Vanci e via as motos, grandes. Ficava ouvindo a conversa dos caras. E acabei conhecendo o pessoal e ficava querendo ir, mas como eu tinha uma CG não tinha muita credibilidade. Isso foi em 99.
E você conseguiu uma moto para fazer enduro?
Não de tanto eu insistir acabaram me levando para fazer uma trilha. Era eu, o Valmir e o Abner. O Valmir ia amaciar o motor da moto do Abner. Fomos até a prainha. Eu fui na minha moto mesmo. Uma alegria imensa de está ali. Andando de moto no mato. Só quem passou pela experiência entende o que estou falando.
E deu tudo certo?
Mais ou menos. Quando fomos atravessar uma água, eu perguntei para um cara que estava tomando banho onde era o lado mais raso. Ele disse é por ali. Eu, novato, sem nenhuma experiência meti as caras.
Parece que to é vendo. Você se deu mal!
Pois é. Ficou só o guidão da moto de fora. E o Valmir e o Abner rindo da minha cara.
O passeio acabou ali?
Não. Os meninos me ensinaram o que eu deveria fazer para a moto pegar. A moto saiu fumaçando, mas eu fiquei fascinado com aquilo. Foi muito legal. Foi aí que peguei o “bicho da trilha”. Isso foi em 97, ainda fiz duas trilhas e participei do meu primeiro enduro, que foi o enduro de Amontada.
E vc conseguiu uma moto para participar do enduro?
Fui com a minha moto mesmo, a CG. Contei 18 quedas. A moto aos pedaços, só com a terceira marcha. Perdi o pedal de marcha, estribo e até a chave do tanque. O meu equipamento era uma calça jeans,uma bota de soldado e um capacete San Marino.
Zé você é doido mesmo, seu apelido era para ser “Zé Doido” ao invés de “Zé galinha”.
Foi uma loucura mesmo. Mas acabei em sexto e fiquei com a maior moral. No final desse ano ainda participei de uma corrida de mototerra. Cheguei em segundo quem ganhou foi o Antonio Jorge.
E a partir daí como foi?
Bom, de lá para cá andei em todo tipo de moto. O lado bom disso é que a gente acaba aprendendo a se virar, e o lado ruim é que a gente não consegue mostrar todo o potencial que tem. Sempre contei com ajuda dos amigos. Um me arranjava pneus, outro a gasolina, outro pagava a inscrição. E assim foi indo.
Lembro de você lá pelo autódromo participando da motovelocidade.
Pois, é. O pessoal tinha uma história de que quem andava bem na terra não andava bem no asfalto, eu sou teimoso e fui comprovar.
Sentiu muita dificuldade?
No início um pouco, a moto não ajudava muito e nas curvas eu queria colocar o pé no chão. Rss. Mas aos poucos aprendi.
Espere um momento. A moto que você utilizava por acaso era a mesma do enduro?
Era.
Rss. Cara. Essa moto sofreu muito.
Isso foi em 2001. Em 2002 consegui uma moto melhor e fui campeão da motovelocidade na categoria B.
Parabéns! E no enduro?
Em 2003 voltei pra o enduro. Corri com uma moto emprestada. Acho que era da Dóris. Nessa época começou o Campeonato Cearense de enduro Fim. Quem ganhasse iria poder participar do “Six Days”. E eu ganhei, mas acabei não participando.
Porquê?
Rapaz se fosse hoje eu faria diferente. Os caras ficaram me dizendo que tinha um tal de pneu ecológico que custava não sei quanto e que cada pneu só durava um dia. E por isso acabei desistindo.
Eu lembro do “Six Days” foi um evento que ficou na história do Ceará. Foi fantástico. E depois disso o que você fez?
Em 2004 conheci o Alexandre (Alexandre Motos) e com ele fiz o meu primeiro Cerapió. Fui como apoio e lá percebi que daria para participar competindo. O pessoal fala que é uma coisa do outro mundo e que você não vai agüentar coisa e tal, mas é só conversa mole. Qualquer consegue você o Piocerá. Dá até para fazer de CG. fui como apoio.
E nos anos seguintes?
Em 2005 na minha primeira participação ganhei as etapas de velocidade. E o engraçado é que o Sandro Hofman, que foi o campeão de 2004 ficou achando que tinha feito uma macacada para eu ganhar. Em 2006 ganhei de novo. O bom de participar deste tipo de prova é que você faz novos amigos, conheci gente de Palmas, Tocantins e da Bahia. E também conhece muita trilhas e terrenos novos. É muito bom.
E essa parceria com o Alexandre durou até quando?
Até 2007.
E o que você fez em 2008?
Não participei de quase nada, só do RN.
E que tal o RN?
Lá é outro mundo. É muito bom em termo de calor humano. Outro tipo de corrida, terreno. Tenho muitos amigos por lá.
Você já participou do Piocerá e do RN. E o rali do Sertões você não tem vontade de participar?
Com certeza. O “Sertões” é um sonho que ainda pretendo realizar. Ainda não sei como, pois o custo lá é bem elevado.
E em termos de equipamentos você tem alguma moto que você acha a ideal para você?
Tem muita moto boa por aí. Uma que tenha suspensão e motor, pois já estou cansado de carregar moto nas costas. Até agora o “Jesus” sempre me protegeu, mas acho que até ele já ta cansando de tanta aventura.
E como foi aquela história de organizar corridas de motos em 2008 (Motorerra)?
Em 2008 não tinha nenhuma corrida de cross no calendário e eu resolvi fazer.
Mas como se você não tem nenhuma estrutura?
Pois é, foi na cara e coragem.
Bota cara e coragem nisso. E o que ficou de experiência disso?
É bem diferente organizar uma corrida. É muito difícil, principalmente com poucos recursos. Para aqueles que gostam de reclamar eu recomendo experimentar dar uma forcinha na organização de uma dessas provas. Eu, mesmo com todo problema que foi, eu toparia organizar outras corridas desde que eu tivesse um mínimo de apoio.
E por falar em apoio como você “desenrolou” durante todo esse tempo?
Ah, o bom da vida é ter amigos, muitos amigos. Graças a Deus tenho muitos. E espero contar com eles pois ainda quero ir para o Sertões.
Zé, obrigado pela atenção. Foi um prazer falar com você.
O currículo do campeão
1999 Motocross do milenio 2º lugar motocrss
2000 Enduro de Canoa 1º lugar regularidade
2002 Campeonato Cearense de moto velocidade 1º lugar cat-b
2003 Campeonato Cearense de enduro fim 1º lugar padrao fim
2003 Enduro das Areias 1º lugar regularidade
2004 Campeonato Cearense de enduro fim 2º lugar padrao fim
2004 Campeao do Festcross 1º lugar
2005 Piocera TVE 1º lugar velocidade
2006 Cerapio TVE 1º lugar velocidade
2006 Brasileiro de Crosscountry 5º lugar crosscountry
2007 Piocera TVE 3º lugar velocidade
2007 Brasileiro de Crosscountry 1º lugar crosscountry
2008 Brasileiro de Enduro Fim 3/4 etapa 1º lugar padrao fim
2009 Brasileiro de Enduro Fim 5º lugar padrao fim
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