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CRISE? QUE CRISE? - 05/04/2009

Desde o último trimestre de 2008 a indústria automobilística, de uma forma geral, vem reclamando de diminuição das vendas de veículos. De fato, isso não foi apenas uma percepção, mas uma constatação. O mesmo aconteceu com as motocicletas. As vendas caíram, não tanto pela falta de interesse do consumidor, mas pelo medo dos bancos de emprestar dinheiro.

Como assim? Pois bem, a esmagadora maioria dos consumidores de motos em nosso país não é propriamente entusiasta do produto, mas pessoas cuja renda não lhes permite adquirir um automóvel. Essa faixa de público fez a alegria de Honda, Yamaha e Suzuki nos últimos anos pois, com a “facilidade” do crédito tornava-se possível, enfim, adquirir seu veículo de duas rodas que lhe permitiria ir e voltar a praticamente qualquer lugar. Foi uma festa! Nos últimos três anos o setor de motocicletas comemorou sucessivos incrementos nas vendas, tanto que o Brasil passou a atrair a atenção dos fabricantes chineses, que correram para cá nos últimos dois anos desejando abocanhar uma fatia do mercado. Até a Kawasaki que há anos não possuía marca oficial no país resolver voltar, num momento em que o Brasil vende mais motos que todos os países da Europa juntos, mas...

Bom, como eu ia dizendo, desde o final do ano passado as vendas de motocicletas vinham caindo. O consumidor típico (aquela esmagadora maioria) desejava ainda ter sua moto novinha, muitas vezes seu único meio de transporte possível, porém os bancos parceiros das montadoras e revendas recuaram ante a crise norte-americana das hipotecas, e isso ocorreu por um fator externo que em nada tinha a ver com o Brasil: o receio dos bancos de não receber dos clientes o dinheiro emprestado.

Depois de meses percebeu-se que a situação no Brasil, no que diz respeito ao mercado de veículos, seja de quatro ou duas rodas, era problemático no que diz respeito à obtenção de financiamentos externos para financiamento à própria atividade operacional, mas não havia (e não há) problemas com a demanda dos produtos (lá fora o crédito estava e está realmente caro). Essa demanda por veículos no Brasil jamais cessou nesses últimos anos; o que cessou foi o crédito “facilitado” ao consumidor final, impedindo a manutenção do ritmo de vendas.

Resumindo o problema: os bancos no Brasil passaram a acreditar erroneamente que nossos consumidores não teriam condições de pagar seus boletos do financiamento, seguindo o comportamento dos mutuários norte-americanos: nada a ver uma coisa com outra, mas... vá entender a cabeça dos banqueiros.

O fato agora é que os consumidores, principalmente aquela esmagadora maioria, são tungados por taxas de juros extorsivas promovidas pelos bancos que atuam no setor. Mesmo com a ajuda promovida pelo Governo Federal que permitiu aos bancos manterem uma maior parte de recursos em caixa, justamente para incentivar o crédito, tais bancos preferiram não “se arriscar” a emprestar para você, caro leitor, que tanto desejava comprar aquela sua moto tão sonhada, imaginando que você não seria capaz de honrar seus compromissos. Pelo contrário, os bancos dificultaram o crédito, passando a exigir uma contra-partida do potencial comprador (um sinal para a compra da moto) e aumentando suas taxas de financiamento, solapando o valor do dinheiro do consumidor com taxas de juros vergonhosas, na casa de 2,5% a 4% ao mês, como eu mesmo pude constatar em concessionárias de Fortaleza.

Para você ter uma idéia, caro leitor, os bancos hoje trocam dinheiro entre si pagando cerca de 11% ao ano, enquanto eu e você, caso desejemos obter financiamento para a aquisição de motos, estamos sujeitos a pagar muitas vezes mais de 50% ao ano sobre o valor financiado, ou seja 400% (ou mais, até) sobre o que os bancos pagam entre si. Um verdadeiro assalto a nosso bolso, não acha? Para quem não tem condições de pagar à vista (sempre a melhor solução nesse mercado), e deseja a moto para ontem, o jeito é se submeter a essa extorsão institucionalizada e ver seu dinheiro partir, engordando o lucro dos bancos e lhe deixando mais pobre.

Essa foi a maneira que os bancos encontraram para se defender de uma crise que eles mesmo provocaram em nosso mercado de veículos quando resolveram aumentar os juros dos financiamentos sem um motivo concreto para isso. Cabe a você leitor não se deixar levar pela suposta crise, e fazer a sua parte: não compre motos financiadas agora. Só há uma forma verdadeiramente efetiva de combater essa extorsão, é usar a lei de mercado mais famosa, a da oferta e da procura: Quanto menos procurarmos os bancos mais eles correrão a nos satisfazer com taxas menores. Só assim, poderemos ter a esperança de fazer bons (e justos) negócios.

Neil yuri - motociclista

 

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