Em 2002, surgiu uma nova categoria no mundial de motovelocidade, a MOTOGP, que veio substituir a categoria de 500cc. O seu aparecimento ocorreu devido às restrições mundiais aos motores de dois tempos e também à falta de ligação das motos de competições com as motos de rua. Os fabricantes japoneses se reuniram e criaram essa nova categoria: motos de quarto tempos, de 990cc e que seriam protótipos, ou seja, não teriam, praticamente, nenhuma peça que fosse parte de uma moto fabricada em escala. A categoria durou até 2007 quando a cilindrada passou para 800cc. O que se viu nesses anos foi um paralelo ao mundo da F1: tecnologia de ponta, uso intensivo da eletrônica, novas tecnologias e o mais importante para os fabricantes: o interesse do público cada vez maior pelas corridas.
O que vamos mostrar, em cinco reportagens, é a tecnologia utilizada na categoria MOTOGP pelos quarto grandes fabricantes japoneses (Honda, Suzuki, Yamaha e Kawasaki) e um italiano, a Ducati, que mesmo não possuindo o porte dos japoneses, mostrou a competência dos italianos em construir motos de competição.
Um pouco de história: O mundial de motovelocidade
As primeiras competições de motocicletas ocorreram na Ilha de Man, na Inglaterra, em 1907. Entre 1914 e 1928, devido a Primeira Guerra Mundial não houve competições, e somente no início dos anos 20 é que as corridas recomeçaram. De 1920 até 1938, as corridas eram organizadas em poucos países europeus, quando a Federação Internacional dos Clubes de Motociclistas (FCIM), antecessora da atual Federação Internacional de Motociclismo (FIM), anunciou um campeonato europeu, que foi interrompido por causa da Segunda Guerra Mundial.
As regras técnicas eram bastante diferentes de hoje – eram três as categorias (250cc, 350cc e 500cc) e as motos corriam ao mesmo tempo. Na época, a sobrealimentação dos motores de 500cc era permitida, e no primeiro ano a BMW ganhou com Georg Meier. Com o início da segunda guerra mundial as corridas foram novamente interrompidas. Quando as corridas recomeçaram, em 1946, existia o problema da disponibilidade e qualidade do combustível. Por causa dos custos o combustível de alta octanagem e o sobrealimentador estavam proibidos e a novidade foi a introdução da categoria 125cc.
Em 1949 a economia mundial começa a se recuperar e a FCIM organizou o primeiro campeonato mundial que teve seis etapas. Pouco depois apareceu a categoria 50cc. Na década de 1950 as pequenas cilindradas foram dominadas pelos construtores italianos e fábricas de outros países também entraram na competição, NSU DKW são alguns exemplos. Os japoneses resolveram participar das competições para mostrar sua competência técnica e as primeiras motos japonesas chegaram à Ilha de Man TT em 1959.
Na década de 60 a variedade de motos era grande, existindo desde as simples monocilindros até uma 250cc de seis cilindros. A competição fez surgir máquinas de alta tecnologia e também de alto custo e isso afugentou alguns competidores, como os japoneses da Yamaha que saíram em 1968. Por causa do aumento nos custos a FIM (antigo FCIM) lançou regras que limitavam maquinas de 50cc com um cilindro, 125 e 250 com dois cilindros e 350 e 500cc quatro cilindros e no máximo caixa de marchas com seis velocidades.
Somente na da década de 70 que algumas fábricas japonesas voltaram ao Campeonato Mundial. Yamaha e Suzuki, que eram conhecidos por produzirem motos de pequena cilindrada, decidiram participar do campeonato mundial para mudar a sua imagem. Ambas vieram com motores de dois tempos. A MV Augusta, que usava motores de quatro tempos dominou a classe de 500cc até 1976, onde teve sua última vitória para os motores de dois tempos. A partir daí praticamente todas as motos utilizadas eram de dois tempos, com exceção da NSR 500 da Honda, lançada em 1979, que utilizava um motor V4 de quatro tempos com oito válvulas por cilindro. Mesmo com muitas inovações técnicas (alguns bem sucedidos, outros não) a moto não foi um sucesso nas pistas. Em 1983 a Honda apresentou a NS 500 que utilizava um motor V3 de dois tempos e venceu o campeonato, e, a partir desse momento em diante, o Grande Prêmio da classe 500 se tornou uma luta de três (Honda, Yamaha e Suzuki) e todos utilizando motores de dois tempos.
Embora as corridas na década de 80 e 90 fossem muito disputadas e atraíssem grande público, do ponto de vista técnico, pouco progresso foi feito e também por causa da preocupação com o meio ambiente, começou a restrição aos motores de dois tempos. Os custos das competições têm que ser justificados e a tecnologia utilizada nas motocicletas de rua pode ser desenvolvido sem depender das competições. A vantagem em um ambiente de corridas é que lá se criam e aperfeiçoam novas tecnologias muito rapidamente. Por isso, no final dos anos 90, Honda e Yamaha propuseram que a categoria 500cc fosse substituída por outra que lhes permitissem desenvolver novas tecnologias e que fossem úteis na estrada, e mantivessem o espetáculo na pista.
As regras da nova categoria
A categoria MotoGP é uma competição aberta a motores (dois ou quatro tempos) aspirados. Os motores de dois tempos estavam limitados a 500cc e os de quatro tempos a 990cc de capacidade máxima. A caixa de marchas é teria no máximo a seis velocidades, e o peso mínimo das motos de quatro tempos é baseado no número de cilindros: três cilindros ou menos 138 kg; quatro ou cinco cilindros 148 kg; seis cilindros e mais 158 kg. O tanque de combustível de 2002 a 2004 tinha um limite máximo de 24 litros, e de 22 litros em 2005 e 2006. E o ruído que sai dos escapamentos é limitado a 130dB.
MotoGP foi propositadamente moldado para ser a Fórmula Um de motociclismo e as regras mantêm uma cuidadosa distância dos modelos de produção. O primeiro regulamento especificava que o motor (cilindros e cabeçotes cilindro) "não deveria ser a partir da produção industrial” e a estrutura básica do motor e a caixa de marchas devem ser feitas de aço ou ferro fundido. Pistões, cilindros e cabeçotes, bloco de cilindros não podem ser estruturas compostas que utilizam fibras de carbono ou de aramida.
Quanto ao chassis não existem limitações reais sobre o seu desenho, mas as restrições de material incluídas no motor também se aplicam aqui. Além disso, designers podem fazer o que eles querem. Quanto à aerodinâmica, as regras são basicamente as mesmas que foram apresentadas no final de 1957, quando a FIM baniu as motocicletas totalmente carenadas. O tamanho de rodas e aros permanece inalterado desde a velha classe 500. Na parte da frente do máximo do aro dianteiro é de 4,00 e na retaguarda 6.25. Diâmetros não são restritos.
O regulamento do MotoGP ainda é um dos menos restritivas no esporte motor. Talvez a razão para isso é que simplesmente que nenhum dos concorrentes achou uma maneira de ganhar alguma vantagem e de ir mais longe que os outros.
Suzuki e Yamaha construíram suas 990 com base nas dimensões dos chassis das 500cc. Kawasaki começou com uma versão de sua superbikes, Honda admitiu que a sua RC211V começou muito semelhante ao seu RC45 das superbikes. Tendo aprendido muito com seu primeiro ano, a Suzuki construiu uma moto completamente nova para o segundo ano, assim como fez a Kawasaki.
Yamaha utilizou várias combinações de diferentes quadros e motor durante o primeiro ano. Honda, por outro lado, tinha um bom pacote no seu primeiro ano e, apesar das várias versões, com pequenas variantes do desenho original do quadro e com um motor atualizado, ainda era competitiva no último ano.
Enfim, o que se viu foi um esforço de desenvolvimento de novas tecnologias. O legado deste regresso aos protótipos de quatro tempos está sendo visto nas nossas motos de ruas e uma melhor compreensão dos comandos eletrônicos, motores mais eficientes e motos mais equilibradas.
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