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TRÂNSITO CIVILIZADO - ISSO EXISTE? - PARTE 1 - 19/07/2008

No último mês de maio aproveitei minhas férias e parti para o Canadá. Decidi conhecer uma parte desse país, que há muito desejava. Como destino escolhi a cidade de Calgary, que recebe milhares de pessoas todos os anos para o seu mundialmente famoso festival Stampede, que reúne cowboys (como são conhecidos por lá os peões de boiadeiro) nessa grande festa de rodeios, apresentações de bandas musicais e muita, muita  gente bonita.

Calgary também é famosa por sediar grandes companhias canadenses que se instalaram por lá após o boom do petróleo naquela região. O óleo trouxe a riqueza, a ponto de transformar a cidade e toda a província num dos motores do crescimento econômico daquele país, rivalizando em termos de prosperidade com as metrópoles Vancouver, Toronto e Montreal, apesar de não guardar, na minha opinião, a beleza destas outras.

Apesar de ter uma extensão similar à da cidade de Fortaleza, Calgary não é uma cidade densamente povoada. Conta hoje com algo em torno de 1,1 milhão de habitantes e, por isso, a sensação de “espaço sobrando” é quase inevitável. Num dia típico, a exceção à regra são os trens públicos entupidos de gente no horário do rush e o grande movimento de carros no centro da cidade e no entorno deste, chegando a provocar engarrafamentos.

No entanto, longe do stress que vivemos nas grandes cidades de nosso país, usuários de vias públicas como motoristas, ciclistas, pedestres e motociclistas vivem num clima de harmonia de fazer inveja aos brasileiros. Lá, diferente daqui, a preferência é sempre do pedestre. Nos 25 dias que passei naquela cidade, fui incapaz de ver, por exemplo, um carro sequer parado sobre uma faixa de pedestres.

Ainda que a população não chegue a 50% da de Fortaleza, a cidade possui muitos carros; talvez até mais do que o que temos aqui, mas com algumas diferenças em relação à nossa frota. O comum em Calgary são os carrões, sedans ou pick-ups enormes que encontram nas largas ruas espaço suficiente para trafegar sem incomodar eventuais carros menores e motos. Como andei muito pela cidade, pude reparar claramente no comportamento típico dos motoristas e motociclistas canadenses. Vejamos apenas quatro exemplos desse, por hora:

1 – Tráfego lento na faixa da esquerda: carros trafegam lentamente, como no Brasil, na faixa que deveria ser exclusiva para ultrapassagem ou para quem vai fazer uma conversão à esquerda mais adiante. Definitivamente, esse problema não é exclusividade nossa. Ao menos, não vi motos, ônibus ou caminhões cometendo o mesmo erro;

2 – Estado de conservação da frota: O nível de renda dos canadenses aliado a uma carga menor de impostos incidentes sobre a venda de veículos automotores, nos permite ver verdadeiras obras de arte motorizadas. Carros, motos e caminhões tinindo de tão novos são a regra, não a exceção;

3 – Educação no trânsito: Experimentei (arrisquei) colocar o pé na avenida, numa esquina onde não havia sinais para pedestres; todos os carros pararam. Dá até orgulho de ser pedestre naquele lugar! Não ouvi nenhum impropério de um eventual motorista apressado, nem tampouco buzinas. Enquanto não pus meus dois pés de volta na calçada oposta os carros permaneceram imóveis. Básico, mas fantástico! Em cruzamentos onde a travessia do pedestre é regulada por semáforos, os veículos que precisam fazer uma conversão passando por sobre a faixa de pedestres aguardam pacientemente (sem buzinas) até que o último pedestre suba a calçada. Tudo na paz, dentro daquilo que é normal (para eles);

4 – Carros e motos não ocupam o mesmo espaço:  Outro comportamento estranho para o motociclista brasileiro típico. Em Calgary não vi uma moto sequer transitando por “corredores”. Todas elas transitam pelas ruas como se fossem carros, sem serpentear entre esses. Se o sinal fechar, não veremos motos cortando caminho até alcançar o sinal vermelho espremida entre um carro e outro. Estranho, não!? Mas elegante e educado.

Em Fortaleza tudo isso é ridículo, “frescura” como dizemos por aqui, ou coisa de gente metida a “certinha”! Pode-se até afirmar que a comparação é injusta diante da quantidade de motos, carros e pedestres que temos por aqui, mas na minha opinião é tudo mesmo uma questão de educação no trânsito, algo que ainda vamos demorar a alcançar, se algum dia conseguirmos.

A impressão é que não só Calgary, mas todo o Canadá ainda consegue manter um alto padrão de educação, a despeito dos milhares de imigrantes residentes que chegam por lá ano após ano, de várias culturas diferentes. Vou torcer para que esse país continue nos dando bons exemplos de convivência nessa selva em que temos de nos meter todos os dias chamada trânsito.

Yuri Oliveira

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