ENTREVISTA - JOSÉ ALBANO - 19/12/2006

Neste número entrevistamos uma pessoa que nos deu prazer em conhecer: José Albano, fotógrafo, motociclista e um viajante inveterado. Uma pessoa humana de grande valor. A forma como ele se tornou motociclista é, no mínimo, curiosa. Já há algum tempo tínhamos ouvido falar dele: um fotógrafo que gostava de viajar de motocicleta, 125cc, e que não a trocava por nenhuma outra moto. Recentemente vimos duas entrevistas dele em publicações locais: a primeira foi no caderno “Veículos” do jornal “O Povo” e a segunda feita pela revista do Ideal Clube, na qual fala dos “Albanitos” – os meninos do bairro que ele ajuda a criar em Sabiaguaba, lugar onde mora. Finalmente os nossos caminhos se encontraram e pude verificar, pessoalmente, que ele era tudo aquilo que falavam.

MR: Como foi a sua história com a motocicleta?
ALBANO: Essa história eu já contei muitas vezes e é interessante. Eu nunca tinha me interessado por motos e estava discutindo (pelo telefone) com um vendedor de consórcio de carros que queria por que queria me vender um consórcio e eu, só para chateá-lo, disse que compraria um consórcio se fosse de motocicleta... Ocorre que ele também vendia consórcio de motos e me falou tanto das vantagens de ter uma motocicleta que eu acabei me interessando pelo assunto. Fui à reunião de consórcio e também me informar sobre o assunto de motocicletas, pois sempre costumo me informar bem antes, é um hábito que tenho.

MR: Que idade você tinha na época?
ALBANO: 40 anos.

MR: Não é uma idade em que as pessoas costumem querer ter uma motocicleta.
ALBANO: Pois é! Eu sei que depois de um ano da conversa que tive com o vendedor de consórcios acabei comprando uma, depois de me informar bem, conversar com motociclistas e pesquisar bastante sobre o assunto.

MR: Qual foi a literatura que você utilizou?
ALBANO: Naquela época não tinha muita coisa nas livrarias, acabei pegando emprestado algumas revistas, acho que era a DUAS RODAS.

MR: E que moto era?
ALBANO: Era não, ainda é! Uma ML 125 que utilizo até hoje e nunca me deixou na mão.

MR: Pelo que vi, você gostou bastante da moto, não?
ALBANO: O começo foi meio difícil porque não sabia andar e ficava andando aqui por perto para pegar prática, mas acabei aprendendo. A verdade é que aprendi a andar rapidamente e fiquei fascinado com a moto, pela facilidade de chegar nos cantos, pela economia e pela praticidade

MR: E na época, você tinha um carro?
ALBANO: Pois é, eu tinha um Fuscão que acabou ficou encostado depois que aprendi a andar de moto. Ele passou tanto tempo parado que quando precisei dele a bateria tinha “arreado” e estava todo enferrujado. Acabou virando um formigueiro ali no quintal. Cheguei até a colocar no jornal um anúncio: “Vendo fusca velho para matar ou fazer buggy”.

MR: Realmente, eu nunca tinha visto uma história dessas. E você acabou comprando a moto do vendedor de consórcios?
ALBANO: Não. Como lhe falei anteriormente eu normalmente pesquiso bem antes e acabei comprando uma moto semi-nova quase um ano depois. Comprei à vista, após eu ter feito um grande trabalho de fotografia, que me rendeu uma grana boa.

MR: Você nunca teve nenhum problema mecânico com ela? Você que faz a manutenção dela?
ALBANO: Até hoje não. Quem cuida dela é o Bigode, que na época tinha uma oficina na Avenida da Universidade.

MR: E como começou a história das viagens?
ALBANO: Foi quando fui fazer um catálogo para o Armazém Paraíba, em Teresina. Pensei: “porque não levar a moto para rodar por lá?” Mandei a moto de trem e fui de ônibus. Foi na volta que resolvi enfrentar a estrada pela primeira vez. Levei três dias para chegar aqui. Foi muito difícil, pois era muito cansativo e o meu corpo ficou todo dolorido.

MR: Você não ficou traumatizado com essa viagem?
ALBANO: Sim, mas também fiquei fascinado pelo sentimento de liberdade proporcionado pela moto na estrada. Queria repetir a experiência e fui me informar como se poderia viajar de moto sem ser tão cansativo.

MR: E o que você achou?
ALBANO: Acabei comprando um livro americano que falava tudo sobre viagens de moto e tinha muitas dicas que acabei utilizando nas minhas viagens.

MR: E a segunda viagem?
ALBANO: Acho que foi em 92 e foi para a Bahia.

MR: Foi tão traumática como a primeira?
ALBANO: Não. Dessa vez com mais experiência utilizei vários acessórios que tornaram a viagem bem mais fácil.

MR: E que acessórios foram esses?
ALBANO: Coisas simples como uma bolsa d’água e uma cinta abdominal. Pequenos detalhes que fazem uma grande diferença.

MR: É, pelas fotos que vejo por aqui, você viajou muito, não?
ALBANO: Bastante. Aprendi muito nas estradas, conheci muitos locais e pessoas. Viajar de moto é uma das coisas que adoro fazer.

MR: Mesmo sendo de 125cc?
ALBANO: Descobri que a 125 é a moto ideal para viajar. Não vejo problema nenhum nisso. É muito mais econômica; mais lenta, o que reduz a tentação de correr demais; tem peças de reposição e mecânicos disponíveis em qualquer lugar do Brasil. É também uma moto mais leve, que eu posso levantar sozinho em caso de queda.

MR: É verdade que você vai lançar um livro sobre viagens de motocicletas?
ALBANO: É sim. Ele é direcionado para viagens de motocicletas de 125cc, a idéia é mostrar que o pessoal da 125 pode (e deve) viajar por aí sem medo.

MR: Me conte sobre esse livro.
ALBANO: Bem, ele foi elaborado pela minha filha, Emília, que aproveitou as histórias das viagens que fiz pelo Brasil afora na minha motocicleta, sozinho, acampando na beira de estrada. E tem muitas dicas para se fazer uma viagem de moto com segurança, como arrumar a bagagem, o que levar, essas coisas. O livro nasceu como um trabalho de conclusão do curso de programação visual da faculdade da minha filha. Mas desde o começo, havia a intenção de publicar.

MR: E quando vai ser lançado?
ALBANO: Espero que em breve. Vou dedicar esse livro a um motociclista morto na BR 116, perto de Russas.

MR: Vi em uma publicação uma reportagem sua sobre os Albanitos. Quem são eles?
ALBANO: São meninos pobres que moram aqui na redondeza e que na medida do possível ajudo na educação deles. Tenho acompanhado estas crianças já há muitos anos. Hoje alguns deles são músicos, artistas e trabalham em diversos ramos. Tem um que hoje é um mestre na informática. O nome Albanitos aconteceu por que alguns dos meninos saiam vestidos com algumas roupas minhas, fantasiados de Zé Albano. Os vizinhos viam e diziam: “olhem os Albanitos” e acabou pegando.

MR: E essa sua moto você não quer trocar?
ALBANO: nunca!

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