ENTREVISTA CLAUDIO VIEIRA - 29/05/2007

Esse ano a CV Racing completa 10 anos e fomos conversar com o seu proprietário, Cláudio Vieira, que nos contou a sua trajetória de sucesso. Para quem está de fora não imagina o esforço que é começar do nada e chegar aonde ele chegou. Como muitos dos nossos entrevistados, o “Claudim”, como é mais conhecido, é apaixonado por motocicletas, e teve que lutar muito para realizar seus sonhos. Uma combinação de talento, força de vontade e amor ao que faz.

MR: 10 anos de estrada é um bom tempo. Você poderia nos dizer como tudo começou?
CV: Bem, eu nasci em Santa Quitéria com 2 anos de idade fui morar em Monsenhor Tabosa, e aos 16 vim morar em Fortaleza.

MR: Seus familiares também eram ligados ao ramo de motos?
CV: Não, pelo contrário, lá em casa ninguém queria saber desse negócio de motos não. O meu pai tinha uma farmácia e todos da família são ligados na área de saúde, exceto eu.

MR: E por que você seguiu por esse caminho?
CV: Quando morava em Monsenhor Tabosa, acho quem 1982, eu andava de bike, mas de olho nas motos, tinha vizinho e grande amigo do meu irmão, o Edmar, que tinha uma DT 180, ele andava muito bem, eu ficava fascinado só em ver aquela moto, queria ter uma de qualquer jeito, e o pior é que no ano seguinte ele comprou uma XL250 zerada. Eu lembro bem quando ele chegou com ela na carroceria de um caminhão e desceu pilotando, nunca esqueci daquela cena. Foi ele que me ensinou a pilotar.

MR: E quando você comprou a sua primeira moto?
CV: Vim para Fortaleza em 1986 e comecei a trabalhar em uma farmácia, fiz economias e, em 1989,  comprei uma RDZ 125cc 83. Fooi através dela que conheci o Cláudio Ceará.

MR: Como assim?
CV: Quando tinha as corridas em Caucaia, em 1987/88, na pista de Jenipabu, eu ia de bicicleta assistir e via o Cláudio, Russo, Teodorico, Cival e o Daniel de Acaraú correndo, era fantástico, só vendo. Em 89 comprei essa RDZ, e, como eu andava muito na praia, ia do Icaraí até o Paracuru pela beira da praia, ela acabou travando e um tio meu me indicou a oficina do Cláudio. Quando cheguei lá e vi que era ele, vibrei muito, fiquei enchendo o saco dele com perguntas sobre corridas e mecânica. Ele consertou a minha moto e disse que já que eu gostava de andar na areia deveria comprar uma DT 180. E foi o que eu fiz.

MR: E quando você decidiu a ser mecânico e ter sua própria oficina?
CV: Isso aconteceu aos poucos, com as dicas do Cláudio eu comecei a mexer na minha moto e uma vez emprestei a minha moto a um amigo para ele correr e ele ficou maravilhado com a minha moto e que não queria mais devolver, eu disse a ele que não venderia a moto, mas poderia “regular” a moto dele. Como a minha mãe não deixava eu consertar as motos lá em casa eu comecei a ir à casa dos “clientes”. Com isso comecei a juntar um dinheirinho e a comprar mais ferramentas. Lá em casa a pressão era muito grande para que eu largasse das motos, pois para eles era coisa de malandro. Tudo mudou quando sofri um acidente de moto grave, mas que também me trouxe coisas boas, passei um bom tempo em casa, com isso meus amigos (nunca imaginei que tinha tantos) iam me visitar sempre e isso fez com que minha família mudasse a visão sobre motociclista. Um pouco antes de eu decidir abrir a minha oficina, eu trabalhava na Emlurb, lá era muito bom por causa do horário, quando falei que ia largar o aquele emprego, todos achavam que eu estava louco. Isso foi no final de 1988, abri minha oficina lá na Av. Mister Hull, o nome era “Moto Racer”

MR: E competições? O que você fez?
CV: Minha primeira corrida foi em 94, lá na praia do futuro, como eu tinha muita experiência de andar na beira da praia acabei ganhando a primeira bateria com facilidade, mas na segunda, acho que por excesso de confiança, levei uma queda daquelas para nunca mais esquecer, mas ainda acabei em segundo. Tinha muita gente boa correndo nessa prova, Cláudio Ceará e Riamburgo na importada, Fábio Goiaba e André Bezerra na Nacional A e o Vagner, Paulinho na Nacional B, categoria que participei. Também nesse ano participei do de Canoa Quebrada que era muito bom. Sempre que posso, faço “umas brincadeiras”.

MR: E na oficina como estava?
CV: Caminhando, aos poucos percebi que teria que me especializar, pois ferramentas especiais e conhecimento fazem a diferença, montar é uma coisa, regular é outra. Fui atrás de informações, entrei em contato com Hélder da Hi-Performance, empresa muito forte no “Sertões” que conheci através das revistas (Motoshow e Duas Rodas). Com ele percebi um item de grande importância: a suspensão. Não adianta ter um canhão se a suspensão não corresponde. Ele passava informações sobre regulagens, válvulas e outros. Em 2000 ele me ligou dizendo que viria para Fortaleza, pois ia ter uma competição (Baja) organizada pelo Dionísio Malheiros, que foi quem começou o Sertões. O Hélder me pediu um lugar na oficina, pois ele estava vindo uma semana antes para regular as motos dos clientes (Juca bala, Jose Helio).

MR: E deu tudo certo?
CV: Deu sim. Ele veio e foi aí que eu vi que eu tinha muito o que aprender. Isso mudou demais minha visão que eu tinha de mecânica e principalmente de organização – foi ai que eu aprendi mesmo – onde está a diferença. E o bom disso tudo é que depois disso muitas portas se abriram. Em 2002 teve uma prova do Enduro Fim do campeonato brasileiro em Fortaleza, já uma prévia do “Six Days” em 2003. O Rômulo da “Moto Street”, que sempre forneceu peças e informações, me ligou para eu ficar de “plano b” para o Felipe Zanol e para o Rafael Filgueiras. O Zanol nessa época tava disputando o campeonato, na equipe tinha também o Bê (Bernado Magalhaes) e o “taxinha”. Foi feito esse “pacote” o Rômulo me pediu que ficasse de “stand by” se os pilotos precisarem de alguma coisa.

MR: Você seria o apoio deles?
CV: Não. Eles tinham tudo, uma equipe bem montada para dar apoio, mecânico, chefe de equipe, tudo. Eu ficaria de alerta para caso eles precisassem de algo. No primeiro dia foi tudo a mil maravilhas, fui mais “tietar”. O esquema era profissional não faltou nada. Agora no segundo dia quando chegamos no local combinado para o apoio, não tinha ninguém da equipe. Eles se perderam e foram para outro local. Os pilotos começaram a chegar, o Zanol, o Rafael, e perguntaram: “cadê os caras?”. Eu disse que ainda não tinham chegado, então o Zanol me pediu para que eu ajudasse no que fosse possível com ele e os outros pilotos”.

MR: E deu tudo certo?
CV: Deu sim, mas deu um stress danado também, teve piloto que chegou e quando percebeu que o apoio não tava lá e ficou bastante stressado. Em compensação o “Bê” e o Zanol eram de uma tranqüilidade só, coisa de mineiro mesmo. O apoio chegou depois, na ultima passagem. Acho que depois entre eles deve ter tido um “arranca rabo” doido. Mas deu tudo certo, Zanol, “Taxinha”, Luis Felipe e o “Bê” conseguiram os resultados que precisavam para irem ao ISDE na República Tcheca e foi a maior festa.

MR: Você deve ter ficado com o cartaz lá em cima, não é?
CV: O que eu fiz qualquer um que estivesse lá teria feito, pois eles me orientavam o tempo todo. No final eles vieram me perguntar quanto eu queria pelo apoio. Disse a eles que queria apenas a camisa deles autografada, o que fizeram de imediato. Logo após isso eles e o Coelho (mecânico de BH) me agradeceram pela ajuda, pois tinha sido de grande importância para eles. Na premiação, também tive uma alegria fantástica, pois o Zanol e o Rafael me deram os troféus que tinham ganhado, foi demais, foi com certeza um dos melhores “pagamentos” que já recebi pelo meu trabalho, coisa de fã mesmo. Tenho eles guardados lá em casa. Isso acabou me dando dividendos inesperados. O Márcio da MR Pró que os estava acompanhando, me agradeceu e perguntou o que eu queria. Disse a ele que apenas informações, para que eu pudesse melhorar o meu trabalho. Foi onde começou a parceria com a MR PRO e também com outras empresas que patrocinavam os pilotos. No Six Days estava junto e acompanhei diretamente a equipe dos brasileiros, pois a MR Pro apoiava quase todos os pilotos da equipe.

MR: E por falar em Six Days soube que você deu apoio à equipe americana e conheceu o Rodney Smith, como foi essa história?
CV: Essa foi uma das minhas grandes alegrias. O Dionísio Malheiros que organizou a etapa de Fortaleza me ligou para que a gente ajudasse alguns pilotos americanos que vinham a fortaleza para se prepararem para o ISDE. Nessa época eu ainda estava na Mister Hull (sai dois meses antes do Six Days). No começo fiquei achando que era gozação, mas quando o Gabriel da Federação (FMC) me ligou confirmando fiquei meio abestalhado. Eu ia conhecer o Rodney Smith, o cara que eu só conhecia através das revistas. Um ídolo para a minha geração que revolucionou o esporte no Brasil. A ficha demorou muito para cair. Falei com o Jean Delano para me ajudar, pois ele conhecia bastante aquela região perto do Beach Park. Tudo deu certo e eles me convidaram para acompanhar a equipe no ISDE, Embora eu já estivesse comprometido em ajudar o Zanol e a equipe brasileira,  consegui conciliar. Deus me ajuda demais, sempre colocando boas pessoas no meu caminho.

MR: E o Rodney, como foi o desempenho dele no Six Days?
Ele teve problemas de roteiro e ficou de fora do título, mas ganhou a prova de supermoto no autódromo e ganhou também uma medalha. Eu ganhei também um prêmio. Foi assim, todo piloto que ganhava no supermoto participava de entrevista. O Nicola, brasileiro que era mecânico do Rodney, me convidou para subir com eles no trio, disse que eu também havia colaborado com o resultado. Eu fiquei sem saber o que falar ou o que dizer, nem lembro o que falei, só sei que estava muito feliz. Como eu disse antes, agradeço a Deus por tudo, faço o que mais gosto na vida, e Deus colocou pessoas excelentes para me ajudar no que eu faço. Por causa dessas experiências tive muitas alegrias e muitas portas se abriram para mim.

MR: Como assim?
CV: Antes comprava as peças de lojas de Minas e São Paulo (Moto Street, Moto Shelter, Zelão, América Sports ...), um dia o Rômulo (Moto Street) me perguntou se já não era hora de montar a loja, eu disse que não tinha como comprar dos grandes como a Silva Mattos (Asw, Fox, Acerbis, Smith... e a Circuit), pois todos pediam um valor muito alto para a primeira compra que tinha de ser a vista, ele acabou intecerdendo por mim e acabei conseguindo comprar o que podia no momento. Devo muito ao Rômulo, é uma pessoa que acredita no meu trabalho e sempre me dá orientações para que eu melhore. Em 2004 ele me convidou para participar do Independência e lá aprendi com ele como se faz o apoio num evento desses. Isso me deu experiência para que eu melhorasse o nosso trabalho de apoio no Cerapió, Também me levou na Husqvarna, onde fiz meu primeiro curso de mecânica em uma empresa forte do meio. Tenho também um grande amigo de SP, Alberto Frigeri, proprietário da A.F.Frigeri, parceiro constante em eventos, sempre que vou ao Salão Duas Rodas, ele faz muito por mim, inclusive na Abertura do Brasileiro de MX em Idaiatuba, onde sempre me recebe de braços abertos. Muitos proprietários das lojas que sempre comprei e até hoje compro são hoje meus amigos, eles também continuam a me orientar, tenho muito respeito e gratidão a todos eles.

MR: E o seu contato com o pessoal da KTM como foi?
CV: Também através do Rômulo, quando fui para o “Independência”, ele me apresentou ao Valdir Siqueira que é o proprietário da KTM Brasil. O Rômulo me disse que se eu quisesse trabalhar com eles (KTM) teria que  me estruturar, ter paciência e persistência, pois a KTM é uma empresa muito organizada, e que eles iriam observar por um bom tempo nosso trabalho, depois conheci o Marcelo Bombana (Motul Racing Lub) que também me ajudou bastante com a KTM. Aos poucos fui melhorando nossa estrutura e o relacionamento com eles, sempre quando ia ao salão Duas Rodas em SP, passava na KTM para ver como era feita a manutenção das motos. No salão de 2007, fechamos parceria e hoje somos Assistência Técnica Autorizada KTM!

MR: Fale-me do seu contato com o Sandro Hoffman, como começou a parceria de vocês?
CV: Sempre buscamos parcerias no intuito de aprender e melhorar, nos encontramos no Salão de 2005, perguntei como era o esquema dele no Cerapió, e da possibilidade dele correr pela CV Racing. Ele aceitou o convite e está na equipe até hoje. Tivemos também outros pilotos (Zanol, Luiz Borim, Russo, Marco Aurélio, Robledo Nicoleti, Herculo Onofre, Helandio Onofre, Eduardo Costa...) em nossa equipe que nos ajudaram a crescer e conquistaram muitos títulos tanto no estadual como no brasileiro e ainda ajudam no nosso crescimento, também sempre buscamos parcerias com a federação e organizadores de eventos. Com eles aprendemos muito e esperamos estar colaborando também com o crescimento do esporte e de todos. 

MR: E quando começou a sua participação no Brasileiro de Motocross?
CV: Em 2004, com o intuito de ampliar os conhecimentos, fechamos parceria com o Carlão da MX Tech. Ele normalmente faz cursos de dois dias, mas eu queria passar uma semana com ele aprendendo na prática como se faz, pondo a mão na massa. Liguei para ele e tentei convencê-lo, mas ele foi inflexível. Liguei para uns pilotos e o Zelão, pedi para eles intervirssem. Pouco depois o Carlão (MX Tech, hoje Mx Suspension) me ligou e disse “vem logo para cá, mas pelo amor de Deus pára de mandar os caras ligarem para cá”. Rss. Passei uma semana lá. E era aquilo que eu pensava, o cara é muito bom mesmo, só quer 100%, não é a toa que trabalha para team Honda. No ano seguinte, fui para o motocross e acompanhei o trabalho do Carlão, desmontando, montando suspensão e também conheci muita gente. A abertura do MX é uma experiência impagável, obrigatório para quem quer aprender e ampliar contatos. Estou nessa até hoje!

MR: E as sua previsão de futuro?
CV: Bom é difícil, principalmente por questões financeiras, mas vejo que as coisas têm melhorado de um tempo pra cá, Federação,  pilotos e tudo mais. O trabalho do Gabriel foi espetacular, e agora temos o “bode” (Alfredo Carneiro presidente da FMC), o Emilio e o Fernandinho, eles têm bastante competência e determinação, mas eles precisam de mais gente trabalhando e empresas apoiando para deixar as coisas nos trinques, isso somente será possível se todos (federação, pilotos e empresas) trabalharem juntos, temos muitas provas em andamento, falta somente uma aproximação ao pessoal do motocross. Tem muita gente cobrando, mas ainda é cedo. Final do ano faz o balanço, vê o que melhorou, o que precisa ser melhorado e por aí vai.

MR: E na loja?
CV: Por aqui estamos procurando sempre melhorar. Ampliamos nosso quadro de funcionários, pois Identifiquei que estava acumulando muitas funções e agora posso ter uma melhor atenção aos clientes. Estamos completando 10 anos no final do ano. Quando começamos a meta era em 5 anos montar loja. Após isso a meta era ser assistência técnica de uma marca forte e também deu certo. Nossa meta no curto prazo é ampliar a boutique e vender motos off road novas/usadas nacionais e importadas. Tudo isso somente foi possível porque temos principalmente, alem da ajuda de parceiros e amigos, o apoio dos clientes com criticas construtivas. Também sempre tivemos profissionais que vestiram a camisa da empresa e correram atrás para que isso se tornasse realidade. A todas essas pessoas sou eternamente grato, pois tornaram reais os meus sonhos e me mantém sempre motivado a fazer o que mais gosto na vida.

MR: Pelo que vimos de sua história isso com certeza vai acontecer. Parabéns!!

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