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ENTREVISTA – ALFREDO MIRANDA - 02/06/2007

O ALFREDO, mas conhecido como “bode” pela turma do enduro,  é um caso à parte no enduro, pois embora andasse de moto desde jovem, só começou a participar do esporte fora de estrada na maturidade (aos 40). A sua trajetória no motociclismo é bem interessante e o seu exemplo valida a máxima que diz que: “Nunca é tarde para começar”.

MR: Você é cearense?
ALFREDO: Sou de Viçosa do Ceará, da Ibiapaba.

MR: Em que ano você nasceu?
ALFREDO: Em  1959

MR: E quando você veio para Fortaleza?
ALFREDO: Em 75, com 16 anos.

MR: E por quê você veio para Fortaleza?
ALFREDO: Para estudar. Tinha concluído o ginásio em Viçosa e lá não tinha opção e eu queria continuar. Fiz o exame da Escola Técnica Federal, passei e vim.

MR: Legal, você fez o quê na escola?
ALFREDO: Fiz o curso de Edificações.

MR: E veio só estudar?
ALFREDO: Não, vim trabalhar e estudar. Vim para cá sozinho, embora eu tivesse mais 6 irmãos. Morei um bom tempo em uma quitinete na Praça José de Alencar, dividia o aluguel com  o Carlinhos que hoje é dono do Bar do Papai, que também é lá de Viçosa.

MR: E trabalhava em quê?
ALFREDO: Aqui em Fortaleza eu trabalhei no Bradesco, como menor estagiário e depois fui para um escritório de uma firma de mineração que tinha lá em Viçosa.

MR: E a sua história com motocicletas quando começou?
ALFREDO: Naquela época o número de motos era muito pequeno, quase ninguém tinha. Acho que comprei a minha primeira moto em 79 e foi uma CG. Era muito diferente. Eu até fui para a segunda Moto Romaria. Aqui em Fortaleza tinha naquela época umas gincanas, acho que era na semana do transito, era a polícia que organizava e era em frente ao canal 10. Em 82 comecei a trabalhar na prefeitura e eu tinha dois colegas que tinham DT, tinha o motocross acontecendo lá na pista próxima do Iguatemi, mas eu não tinha interesse em competição e nem fazer enduro, essas coisas. O que eu gostava de motos era a liberdade e facilidade de locomoção.

MR: E acidentes?
ALFREDO: Tive poucos, considerando o que rodei por aí e algumas besteiras que fiz. Tive logo no início, quando retornava de uma vaquejada em Iguatu, vinha à noite na estrada e bati numa vaca e machuquei bastante o tornozelo, a sorte é que consegui colocar a moto para funcionar e consegui chegar em Quixeramobim. Lá um motociclista ajudou-me, fui no hospital mas não foi feito nada por que não tinha nem raixo-x acabei deixando a moto lá e voltei de ônibus e chegando aqui em Fortaleza fui direto para o IJF.

MR: Isso não o fez pensar em desistir da moto?
ALFREDO: Não.

E como você aprendeu a andar de moto? ? Alguém lhe ensinou ou algo parecido?
Bom, eu andava bastante de bicicleta, para você ter uma idéia em 78 eu fui para Viçosa de bicicleta com um amigo da Escola Técnica. Daí pra andar de moto, foi só comprar e encarar.

MR: Qual a distância até lá?
ALFREDO: 350 km.

MR: Foi e voltou?
ALFREDO: Rss. Não, foi só ida mesmo. A ida bem pior do que a volta porque é só subida. Eu só fui comprar o meu primeiro carro em 89, até lá só andava de moto. Casei, e quando, nas 3 vezes que minha esposa foi para a maternidade nós sempre fomos de moto.

MR: Então você deve ter muitas histórias para contar.
ALFREDO: É verdade, tem umas cenas que às eu vezes eu me lembro e dá vontade de rir. Como uma vez que fomos uma festa de Natal da empresa, eu a mulher e os meninos. Na volta o meu filho ganhou uma bola bem grande e foi a maior novela para a gente levar aquela bola na moto.

MR: A esposa não reclamava?
ALFREDO: Não, ela sempre me acompanhou, uma vez fomos com uma XL 250 de um amigo para uma festa em Camocim, a gente não tinha horário para  chegar nos cantos e mudamos o roteiro algumas vezes durante a viagem. Escapamos de um acidente já perto de Viçosa numa estrada carroçal por que o pneu furou e o borracheiro montou o freio traseiro errado. Foi uma aventura!

MR: Seria a sua primeira trilha?
ALFREDO: Acho que sim.

MR: E como começou a interessar-se por enduro, trilhas essas coisas?
A história é interessante, eu trabalhava com informática  e um amigo (Eudes Dias) trouxe um compass para que eu consertasse e eu fiquei curioso em saber que equipamento era aquele. Ele explicou e conversa vai e conversa vem ele acabou me convencendo a participar do Piocerá?

MR: Piocerá? Que loucura, mas aí seria a sua primeira trilha. Isso foi quando?
ALFREDO: Em 2000. Cara, eu não sabia nada desse negócio de enduro, nada mesmo. Acabei me empolgando e comprei até a moto que ele me indicou.

MR: E que moto era?
ALFREDO: Uma XT 600

MR: Uma XT 600? Acho que não era a melhor opção, “mui amigo” esse seu amigo.
ALFREDO: Hoje eu sei que não era a melhor moto. Nessa época até comentei com o Valdson, que eu conhecia através de negócios de Internet. E quando comentei sobre em participar do Piocerá e falei que tinha comprado uma XT, ele me aconselhou a participar da categoria Novatos e disse que a moto não era muito indicada. Rsss.

MR: E vc foi assim mesmo?
ALFREDO: Fui e acabei me dando bem. Foi bem difícil, cai muito, a moto era pesada coisa e tal. Para voce ver eu nem tirei os piscas da moto e quando cheguei lá em jericoacora, ouvi muita gente comentando sobre “um doido que veio de XT”. rsss

MR: E apoio e essas coisas?
ALFREDO: Antes de falar do apoio, devo dizer que o Eudes desistiu de ir e eu nem sabia que precisava de apoio. Eu tive sorte, fui sem nada, sem mecânico, mas nessa trilha o Olindo quebrou o pé em Uruburetama. O Valdson acabou me incluindo no lugar dele, já que ele tinha se acidentado.

MR: E deu tudo certo?
ALFREDO: Deu. No segundo dia fomos ate Parnaíba, foi um trajeto horrível, só areia. A moto pesada eu caia. O Pedro Eugenio foi na categoria Novato comigo e me ajudou diversas vezes para levantar a moto. No terceiro dia também foi terrível. Largamos de madrugada e eram 400 km de trilha, foram 11 horas e meia de prova. Muita água.
Quando a organização foi fazer o levantamento das trilhas tava tudo seco, mas quando fomos passar tava tudo inundado. Numas dessas passagens muita gente ficou, e eu tive a ajuda de uma lavadeira que me ajudou dizendo por onde eu deveria passar. Cara foi o máximo. Eu numa XT, novato e passando onde muito macaco velho ficou pelo caminho. Só teve um problema no final, justamente numa serra chamada Serra da XT, deu um problema no motor de arranque, mas como já estávamos chegando, peguei uma carona e o Cláudio Baixim que era o meu apoio foi lá e consertou a moto.

MR: Depois disso você trocou a XT por uma moto mais indicada pra o Enduro?
ALFREDO: Que nada, fiz muitas trilhas com o Valdson, que nessa época botava pra quebrar mesmo, não tinha moleza não. Fiz todas elas com a Xt.

MR: E hoje que moto você usa?
ALFREDO: É a “tiquinha”, eu uso o quadro de uma DR, o motor de Tornado e por aí vai, é o “tiquim” de uma e o “tiquim” de outra.

MR: E quando você começou a organizar Enduros ?
ALFREDO: Em 2001. Organizei a minha primeira prova, o Enduro de Canoa, e de lá pra cá,não parei mais.

MR: Criou gosto pela coisa?
ALFREDO: Pois é, eu gosto de fazer o levantamento das trilhas, de organizar as provas. É interessante.

MR: E o grupo “NóisNaTrilha”?
ALFREDO: Somos eu, o Fernandinho e o Emílio, mas ainda não é uma pessoa jurídica. Estamos nessa, desde o ano passado, mas pretendemos fundar um motoclube, tudo legalizado.

MR: Agora você é presidente da Federação, quais os planos?
ALFREDO: Pretendemos tornar esse nosso esporte mais popular ainda. A idéia é aumentar o número de pilotos federados e vamos “chamar” também o pessoal do interior, para isso estamos fazendo promoções como o sorteio de uma moto zero de 230cc para quem participar de oito provas das 12 do campeonato.

MR: E quanto ao motocross e a motovelocidade?
ALFREDO: No motocross conversei com o Cláudio Ceará e com o Fábio Sampaio e eles serão nosso “link” com os organizadores de provas. Quanto à motovelocidade temos o Luis Borin e você (Adelino) que estão trabalhando na organização do campeonato deste ano.

MR: Certa vez conversamos sobre a possibilidade do uso de GPS no enduro, como está essa idéia?
ALFREDO: Bem, quanto entrei para o enduro observei a problemática da coleta de dados no enduro de regularidade, que era utilizado os PC’s (Posto de Controle) com coletores, esta forma de coletar tem muitas falhas. Muitos métodos foram utilizados visando diminuir essas falhas, até filmadoras, etc. Nessa época (ano de 2000) comecei a pensar em algo, como eu mexia nessa área (informática) comecei a pesquisar. O problema é que os GPS eram caros e bem limitados em termos de armazenamento de memória. O preço era proibitivo, mas plantamos a semente. Durante o enduro de Santa Quitéria (em 2002) eu levei um protótipo para fazer os primeiros testes em um carro, pois nas motos era bem mais complicado. Deu tudo certo, mas as pessoas não acreditavam que funcionasse legal, na época, mesmo assim eu não desisti e mostrando um equipamento para o Valdson ele acabou acreditando na idéia e viu uma oportunidade de explorá-la no ramo comercial, para a gravação de “tracks” dos carros. Daí nasceu o Kaboo que todo mundo conhece e que está sendo muito utilizado no campeonato cearense de rali. A vantagem desse equipamento é que você não depende mais dos PCs físicos (operador+coletor), eles são virtuais.

MR: E as desvantagens?
ALFREDO: A primeira é o preço, e no começo muita gente reclamou, pois todos estavam habituados com os PCs e tiveram que se acostumar a não ter mais uma bandeira em um local e tiveram que andar sempre regular. Outro problema é a coleta dos dados que demorava um pouco.

MR: E nas motos quando vai começar a utilizar?
ALFREDO: Nas motos é bem mais problemático que os carros, pois tem o problema do local onde colocar o equipamento para que não caia ou quebre. O equipamento que vamos colocar é mais evoluído que o Kaboo, é mais resistente, menor, com mais memória e a coleta de dados também é   muito mais rápido.

MR: Então é o melhor dos mundos?
ALFREDO: Não exatamente, pois tudo tem as suas “problemáticas”. Uma delas é o preço, que mesmo tendo diminuído bastante, fica complicado você fornecer esse equipamento para setenta ou mais pilotos.

MR: E quando vai ser o teste?
ALFREDO: Eu já testei bastante o equipamento, mas acredito que só vamos poder colocar na segunda ou terceira prova deste ano.

MR: Qual é o custo?
ALFREDO: Somente R$ 350,00 por piloto.

MR: Cada piloto vai ter que comprar um?
ALFREDO: Não. A federação vai fornecer um para cada piloto, mas caso o piloto queira colocar um adicional por precaução ele pode colocar. É só comprar ou alugar. Nos carros, aconteceu recentemente, de um piloto ter um equipamento colocado pela organização não funcionar. Por sorte dele eu tinha colocado um dos nossos para testar, ai valeu como prova (o regulamento previa isto)

MR: Qual o nome desse equipamento?
ALFREDO: Nós vamos chamar de PCShow.

MR: Quem mais utiliza esse sistema no Brasil.
ALFREDO: Algumas agremiações  do sul do país já estão utilizando. A totem já colocou no equipamento deles. Como ela trabalha com apuração  e tem os coletores ela colocou um gps para não ficar atrás tecnologicamente. Eles até comentaram que nós aqui do Ceará estamos sempre “inventando” coisas.

MR: Esperamos que tudo dê certo na Federação e parabéns pela iniciativa da utilização do GPS nas provas de enduro.
ALFREDO: Estamos motivados a fazer o melhor e se cada um fizer sua parte o esporte no Ceará vai crescer bastante.

 

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