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ENTREVISTA LORIN DOS AROS - 16/04/2007

O nosso entrevistado, o sr. Antonio Francisco da Silva, é mais conhecido no nosso meio por “Lorin dos Aros”. Figura simpática e sempre presente nas competições, ele é daquelas  pessoas que parece que todo mundo conhece, tanto pelo seu trabalho e como pelo seu caráter e prestatividade. Para nós foi um prazer conversar com ele e conhecê-lo melhor. 

 MR: Lorin, como foi que você começou a sua história nas motos?
Lorin: Bom, eu sou de Pacajus e lá certa vez andei numa TT de um conhecido e fiquei apaixonado.

MR: Mas já era envolvido no esporte fora de estrada?
Lorin: Não. Nessa época eu era menor de idade e trabalhava numa oficina de bicicletas. Só fui me envolver com o fora de estrada em Fortaleza.

MR: E quando você veio para Fortaleza e porquê?
Lorin: Por que aqui tem mais opções de trabalho e de estudo.

MR: E o que você fez por aqui?
Lorin: Antes de começar a trabalhar com motos, eu trabalhei de auxiliar em um escritório de advocacia e no almoxarifado da Esmaltec (fábrica de fogões). Aprendi muito lá, pois eu sou muito curioso e tinha trânsito livre em todas as áreas da empresa, eu ficava perguntando, enchendo o saco dos caras, alguns não gostavam de explicar, mas outros tinham o maior prazer em ensinar. Aprendi muito assim.

MR: E depois disso?
Lorin: Fui trabalhar consertando fogão, pois estava desempregado e a minha mulher estava grávida.

MR: Pelo visto você casou cedo hein?
Lorin: Pois é. Tinha  22 anos e tive que me virar. 

MR: E qual foi a sua primeira moto?
Lorin: Foi uma MZ 250.

MR: Lembro bem dessa moto, era muito feia! E porque comprou logo essa moto?
Lorin: rss. Porque era muito barata, só que dava muito defeito na parte elétrica.

MR: E quando você começou a trabalhar com motos?
Lorin: É uma história engraçada, parece brincadeira, mas foi por causa da MZ.

MR: Como assim, você mexia nela para consertar?
Lorin: Não, mas como ela dava muito problema na parte elétrica eu vivia lá no Java (eletricista), só que o Java é muito descansado e me deu a maior canseira. Uma vez um cara me viu por lá e perguntou se eu não sabia desempenar aro de motos.

MR: Quem era o cara?
Lorin: Era o Walter,  ele tinha uma loja de peças. Eu disse para ele que já tinha experiência em bicicletas, e que poderia aprender. Ele disse assim: “Te arranjo um espaço lá na minha loja, tu arranja um gabarito para faze o desempeno dos aros e fica trabalhando lá”. Eu topei na hora.

MR: Que sorte hein? E tudo por causa da MZ 250!
Lorin: Pois é. Pra você ver como o mundo dar voltas.

MR: E quando comprou uma moto de verdade?
Lorin: Pouco depois que tava trabalhando lá no Walter comprei uma Turuna.

MR: E esse nome de Lorin dos Aros?
Lorin: Foi o “nego da Unimaq” que era muito gaiato e disse que o meu nome não combinava comigo e começou a me chamar de “Lorin do Aros” e esse apelido acabou pegando.

 

MR: E como é mesmo o seu nome?
Lorin: Antonio Francisco da Silva

MR: E quando começou a se envolver com o enduro?
Lorin: Quando eu tava na oficina do Walter, o Claudio Baixin (mecânico) que também trabalhava lá, conhecia o pessoal do enduro: Solon, Macambira e Valdson, que eram os “cabeças” do enduro.
Uma vez fui com o Cláudio “levantar” um enduro em Amontada.

 

 

MR: E gostou da experiência?
Lorin: Não foi horrível! Os caras me  colocaram para subir uma serra, não gosto nem de lembrar, fiquei uma semana doente, tive até febre. Eles eram loucos e botavam para lascar. Acho que nem jumento passava lá. Praticamente carreguei a moto nas cosas. Me arrependi demais. 

MR: E aí, você não quis dar umas porradas no Baixim por causa disso?
Lorin: Rss Não. E o pior que eu ainda tinha que ser PC na prova. Foi uma piada. Eu disse que não ia de moto e iria a pé. Só que era muito longe acabei não chegando a tempo no local, quando estava perto o Riamburgo já vinha passando e ele perguntou: Aqui que é o PC Lorin? Eu disse não você já passou. Ele que é muito mala disse: “tu marca o PC aí que eu tô zerado”. Eu acabei ficando lá mesmo. Ninguém sabia. Ficou por isso mesmo.

MR: E quando você começou a participar das competições?
Lorin: A minha primeira competição foi no enduro que foi dos namorados logo após esse evento em que fui ser PC. Também participei de algumas competições de motocross.

MR: Sempre vemos você trabalhando nas equipes de apoio em competições.
Lorin: Já trabalhei em quase tudo aqui do Ceará, no Piocerá e no Rali dos Sertões.

MR: E como foi essa história dos Sertões, não foi difícil “entrar” lá?
Lorin: Não, na verdade foi um tremendo golpe de sorte. Teve Baja aqui em Fortaleza e como eu estava com a clavícula quebrada por causa de um acidente em uma trilha, eu levei o meu irmão mais novo para ajudar. Eu tava com o Brunao que eu conhecia do motocross. E eu sempre ficava até mais tarde vendo o movimento das equipes. Não conhecia ninguém. Era mais ou menos uma hora da manha, tinha um piloto da equipe Bike Box com uma Husqvarna que sofreu um acidente e danificou o aro. Ele me perguntou se eu desempenava e eu disse que sim.

MR: E deu certo?
Lorin: Foi coisa de louco, era mais de meia noite, eu com a clavícula quebrada. Acabou dando certo por que eu estava com o “Dominado” e ele foi comigo na minha oficina (às 2 horas da manhã) e eu fiquei dando as dicas para ele desamassar o aro.

MR: E ele conseguiu?
Lorin: Rss não. Eu acabei desempenando o bicho na “porada” mesmo.

MR: Você é meio doido. rss.
Lorin: Pois é. E você acredita que o serviço ainda ficou bom? No dia seguinte quando eu fui entregar o aro o cara ficou de boca aberta sem acreditar.

MR: E não era para menos.
Lorin: Ele disse que achava que aquele aro ia para o lixo. E quando perguntou quanto era eu disse que não era nada. Disse que tinha feito só para ajudar. Foi aí que ele ficou doido sem acreditar. Ele insistiu muito e eu acabei cobrando 50 reais pelo serviço.

 MR: Depois disso você virou um herói para ele não foi?
Lorin: Rss. Onde eu tava e ele me via ele ficava me elogiando, dizendo que eu era o salvador da pátria. E por causa disso quando terminou o Baja veio o cara da Michelin e disse para mim: “vc num topava ir conosco não para o sertões”?

MR: Lógico que você topou.
Lorin: Claro, nem pensei. Respondi logo: topo! Não perguntei nada só disse que topava. Isso era no começo do ano e o “Sertões” era em julho, achei que nesse tempo eles iriam esquecer. Ele me deu o cartão dele  e disse que quando faltasse um mês eu ligasse que iam fariam a minha inscrição. Todo mundo falava naquilo, era um sonho. Um rali internacional. Quando faltava um mês eu liguei e não é que deu tudo certo? Eles me mandaram a passagem de avião eu fui para o Sertões.

MR: Cara que história e isso tudo por que você ajudou uma pessoa que estava com problemas.
Lorin: O dominado brinca comigo e diz assim: Você já deu muita marretada na vida, mas a mais importante foi aquela que você deu consertando aquele aro para aquele cara no Baja.

MR: E como foi lá?
Lorin: Era uma equipe de motos. Eu tive que aprender a colocar o “mousse”, que é uma borracha que se usa nos pneus das motos do fora de estrada e estava sendo lançado no Brasil e o pessoal tinha a maior dificuldade para montar, era preciso uma técnica para a montagem. Era um negocio complicado e eu nunca tinha visto.

MR: Então você aprendeu a usar o mousse.
Lorin: Pois é eu aprendi na marra mesmo. A largada era no Morumbi, em São Paulo, de lá ia para Jandira, depois Franca e depois Fortaleza. Tive muitas dificuldades, pois em São Paulo tava muito frio. Você usa um gel para facilitar a colocação dos aros, mas mesmo assim era muito ruim. O pessoal tinha muito boa vontade de ensinar e eu de aprender. Foram 15 dias e quase 6 mil quilômetros.

MR: Deve ter sido muito cansativo.
Lorin: Foi. O pessoal da Michelin montou uma estrutura e eles trocavam pneus de graça para todo mundo. Era cortesia. Era muito serviço.

MR: Era almoço e janta mousse não é mesmo?
Lorin: Rss. Era isso mesmo

MR: E tinha mais alguém montando os pneus com você?
Lorin: Não, nas motos era só eu e nos carros eram 2 caras.

MR: E então você gostou da experiência?
Lorin: Demais, fiz muitas amizades. O segredo é você ser como um camaleão, ficar meio invisível e procurar se adaptar, pois cada um tem um jeito de trabalhar.

 MR: E você continuou indo também nos anos seguintes?
Lorin: Sim, o ano mais difícil foi quando um pouco antes de ir eu tive um acidente de moto e acabei quebrando a rótula.

MR: E como vc foi?
Lorin: Cara foi uma loucura, o médico que me operou disse que eu tinha que passar uns 40 dias sem botar o pé no chão. Eu tinha que ta lá em dois dias.

MR: E como deu certo?
Lorin: Os meus amigos eram contra, lembro do Pergentino dizendo para que eu não fosse de jeito nenhum, mas eu disse que ia e fui. Arranjei umas muletas com o Passarinho e fui.pegar o avião para Goiânia. Eu não falei para o pessoal de lá o que realmente tinha acontecido, disse apenas que tinha sido uma “pancadinha” no joelho.

MR: Mas foi uma grande irresponsabilidade sua!
Lorin: Foi mesmo, mas em momento nenhum eu achei que não ida dar certo, senti muita dor algumas vezes. E lá no “Sertões” eles só descobriram por que tive uma dor de cabeça muito grande e o medico que me atendeu perguntou o que tinha sido aquele negocio no joelho e eu contei, mas pedi para ele não falar nada. 

MR: E deu para trabalhar bem?
Lorin: O “Sertões” ia rodando, durante o dia a gente deslocava, o joelho desinchava, de noite trabalhava normal. Botava roda, os caras até me poupavam. Fiz o meu trabalho como devia ser. Só que já no final eu tava fazendo o curativo e um cara da equipe viu o corte e ficou assustado com o que viu e disse: cara você é louco, eu pensei que era uma pancada no joelho, você não tem juízo. Não era nem para ter vindo. A gente dava um jeito.

MR: Depois disso o seu prestigio subiu bastante na equipe não?
Lorin: É verdade, mas eu fiz aquilo porque não me via fora do “Sertões”.
 
MR: Você é louco mesmo! E a história do Rali Paris Dakar?
Lorin: Pois é, nos “Sertões” acabei dando apoio a 3 portugueses e eles gostaram do meu trabalho e me convidaram para trabalhar com eles no Dakar.

MR: É mais infelizmente esse ano foi cancelado!
Lorin: Eu fui e quando cheguei lá fiquei sabendo que os terroristas ameaçaram acabar com tudo e a organização resolveu cancelar.

MR: E como foi a reação de todos quando souberam do cancelamento?
Lorin: Foi uma tristeza geral, muita gente chorou. Muitos estavam participando do seu primeiro Dakar, eu inclusive.

MR: E depois disso o que aconteceu, você voltou para o Brasil?
Lorin: Não. A minha equipe foi assim mesmo para o Marrocos para treinar, já tava tudo pago mesmo. Os caras levaram tudo, como se fossem competir de verdade, as motos, equipamento, enfim, toda a equipe.

MR: E foram pra onde?
Lorin: Fomos para o Marrocos, onde ficamos seis dias.

MR: E como é por lá?
Lorin: Cara é muito diferente, aliás, tudo diferente: o povo, língua, clima, costumes. Gostei demais! Foi uma experiência inesquecível.

MR: E o que você foram fazer lá já que o Rali foi cancelado?
Lorin: Os pilotos foram treinar, fazer alguns trechos do ano passado. A gente saia cedo e só parava de noite. Doloroso foi ver o equipamento abandonado nas cidades pelas quais o rali ia passar. As cidades que não tem estrutura nenhuma se preparam para receber 6 mil pessoas num dia! Cria uma expectativa muito grande.

MR: E para 2008 quais os planos?
Lorin: Bom, o que acontecer a gente encara, se me convidarem novamente para o “Sertões” e para o Dakar, que parece que vai ser aqui na América do sul, com certeza irei.

MR: ok, Lorin, foi um prazer conversar com você.

 

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