ENTREVISTA - RUSSO - 05/04/2007

O Russo é o piloto de motocross que mais tempo tem de estrada aqui no Ceará (pelo que nós sabemos). São 21 anos de estrada. O seu jeito calmo e tranqüilo fez com que ele se tornasse uma pessoa querida e respeitada no meio motociclístico. Não é qualquer um que consegue manter o ritmo durante todo esse tempo. Ele é como um “Rolling Stone”, pois como diz o ditado: “Pedra que rola não cria limo”. Veja agora a entrevista que realizamos e conheça esse grande campeão.

 

 


MR: Faz tempo que queríamos conversar com você, muitas pessoas nos disseram para lhe entrevistar, o seu “ibope” é alto. Você é uma pessoa muito conhecida e respeitada no motocross.
RUSSO: Eu tenho 21 anos de motocross e nesse tempo fiz muitos amigos.

MR: você é cearense?
RUSSO: Sou de Fortaleza, de Bela Vista.

MR: Qual sua idade?
RUSSO: Nasci em 28/11/65.

MR: Como começou a sua história com o motociclismo?
RUSSO: Bem, na realidade eu comecei “a brincar” primeiro de bicicleta, eu tinha uma turma bem grande que gostava de “asilar” por aí. Fazíamos brincadeiras tipo levantar a roda dianteira da bicicleta, essas coisas. Eu tinha uma “Monark” grande, com o guidão tipo tt, garfo duplo, tínhamos rampa e gostávamos de saltar sobre ela.

MR: Você corria de bicicross?
RUSSO: Não, nunca fiz bicicross. Naquela época eu fazia algo que ninguém fazia e até hoje não vi ninguém daqui fazer. Eu pegava a bicicleta numa descida e vinha em alta velocidade, os meus amigos ficavam deitados, e eu pulava por cima deles. Não usávamos rampa, a gente começou treinando pulando esgoto. O recorde era de 12 pessoas.

MR: Esses seus amigos confiavam muito em você! E quando você começou a andar de moto?
RUSSO: Eu comecei com uma RD 50, depois fui mudando, tive DT 180 e comecei no cross em 86.

MR: E por que motocross e não enduro?
RUSSO: Não sei, sempre gostei mais do cross, acho mais emocionante. E na época que eu andava de bicicleta eu saia do Zé Válter e ia ver o Wanderley treinar. E também tinha o Cláudio Ceará que andava demais.

MR: Pois é, nós já entrevistamos os dois. Conhecer o Wanderley para nós foi uma grande honra, pois a história do motocross no Ceará começou com ele.
RUSSO: É verdade. O Wanderley “era o cara”. Lembro bem que ele tinha uma D10 azul com a carroceria de madeira. Ele chegava na pista, parava, fazia um circulo, botava a moto, tinha o Toinho que era o mecânico dele e, pouco depois ele entrava na pista. Meu amigo! Era uma coisa linda de se ver. O som da moto, só em lembrar fico arrepiado, parecia um besouro. Ele andava demais e eu nunca vi um piloto como ele. Digo para você que eu comecei a correr por causa dele, foi a minha inspiração.

MR: Como foi o seu início no motocros?
RUSSO: Não foi muito bom, na primeira corrida, fui de DT, e tava com um medo danado, dos saltos, aquela coisa. Acho que foi em Acaraú. A moto acabou quebrando, eu não sabia nada de preparação, foi decepcionante, mas peguei pressão e resolvi trocar de moto. Fui na loja do João (Joni Motos) e dei duas motos que eu tinha e ainda fiquei devendo uma grana. Por sinal, foi aí que conheci o Cláudio Ceará que me deu algumas dicas, ficamos amigos. Viajamos muito juntos. Só que ele levava a coisa mais a sério do que eu. Ele sempre brigava comigo porque eu gostava de beber, aliás, gosto até hoje. Para mim o motocross é curtição. Ele acabou indo para o sul onde fez bonito, e se ele tivesse ficado por lá acho que ainda estaria andando até hoje, como o Sacaki e o Raspa fazem até hoje.

MR: E depois da decepção da primeira corrida?
RUSSO: Bem, como falei anteriormente, peguei pressão, troquei de moto e comecei a treinar. Teve uma corrida no Pecém, mas acabei atolando a moto, foram quatro pessoas para tirá-la. Na segunda corrida foi diferente: ganhei. Foi ótimo!

MR: Quem eram os “caras” que andavam nessa época?
RUSSO: Não lembro de todos, mas tinha o Eudes que organizava as corridas. Tinha o Alberto “maguin”, o Mario Itapipoca, o Léo de Itapipoca, o Cláudio Ceará corria, mas não marcava pontos, era só demonstração.

MR: E por que o nome de Russo?
RUSSO: Tinha um cara que era o meu técnico, o Renato, foi ele que colocou esse apelido. Ele corria de motovelocidade em são Paulo e tinha um piloto que andava muito bem e o nome dela era Russo. Quando fomos fazer a inscrição ele perguntou: “Como é o teu nome?” Eu disse Carlos. Ele disse, “Não, Carlos não, vai ser Russo”. E ai ficou. Eu escolhi o número 17 onde utilizo até hoje.

MR: E as viagens, as corridas fora do Ceará?
RUSSO: A gente ficava sabendo das corridas e botava a moto em cima do carro e ia embora. Não tínhamos muito patrocínio. Teve em 87, com o Henrique do posto texaco, eram 3 pilotos na equipe: eu, o Guto e o Laécio. Como as motos quebravam muito e a manutenção era cara o Henrique disse que só ia bancar um na WR e a gente quase se mata (risos), mas eu fiquei com o patrocínio. Tem também o Egberto, que para mim é como um pai. Gosto demais dele e foi um cara que me ajudou e deu muita força. Devo muito a ele.

MR: Nós o conhecemos na motovelocidade em 88.
RUSSO: Eu também corri de motovelocidade. Corri umas 4 corridas. O pessoal do cross daquela época foi todo para a motovelocidade: o Gladstone, o Cláudio Ceará, o Riamburgo.

MR: Você é um piloto muito técnico, você fez algum curso? Como você aprendeu?
RUSSO: Aprendi muito com o claudio e me inspirei no Wanderley que é o meu ídolo do motocross. Ele encostava o guidão no chão. Fazia umas curvas muito loucas. Coisa que eu não vi mais ninguém fazer.

MR: Então foram 21 anos de estrada sem parar?
RUSSO: Na realidade fiquei de fora no ano de 90. Naquela época deu uma desanimada, meu filho nasceu, aconteceu um bocado de coisas.

MR: E campeonatos, quantos você ganhou?
RUSSO: Em 96 e 2001. Em 96 ganhei por um ponto do Rogério, ele ficou “uma arara”. Ele mandou rever a soma dos pontos, são muitas histórias nesses anos todos.

MR: E acidentes?
RUSSO: Tive alguns, quebrei a perna. Em 92 quebrei a omoplata. E o escafóide umas duas vezes. Coisas do esporte.

MR: Esse ano você e seus irmãos organizaram a Copa Zé Valter que foi um sucesso. Como foi isso?
RUSSO: Organizar competições é complicado, é muito difícil arranjar patrocínio, mas acho que fizemos (suprimi o foi) uma coisa muito importante. Não ganhamos nada. A gente fez por que gosta muito do esporte. Além dos meus irmãos, até a minha mulher participou da organização, o Cláudio Vieira a chamava de “Dona Russa”. E algumas pessoas reclamaram também, mas acho que é isso mesmo, faz parte.

MR: E dos pilotos de hoje, tem alguém que se destaca?
RUSSO: Aqui em Fortaleza tem o Luiz Borin, nós treinamos muito juntos e também fizemos algumas viagens. Ele está se destacando nesses últimos 6 anos por que tanto é piloto como também organizou algumas corridas e fez pistas que propiciam os treinos da galera. Aprendi bastante com o Luís, pois como treinávamos juntos, o nosso nível de pilotagem melhorou muito e o resultado se via nas corridas.

MR: Até quando você pretende participar de competições?
RUSSO: Para falar a verdade acho que esse ano vou parar de competir. Já não me divirto tanto e, com a idade, a gente fica mais cauteloso. Vamos ver. Pretendo continuar ajudando ao pessoal que organiza e talvez organizar mais uma copa como a do ano passado.

MR: Grande Russo, foi um prazer conhecê-lo melhor.
RUSSO: Obrigado a você, Adelino, por estar fazendo esse trabalho que vai propiciar a nova geração saber dos grandes pilotos que já tivemos e ainda temos, nesse esporte tão querido e "viciante" que é o motocross, principalmente o do nosso estado.

©2005 - 2007 Moto Revista - Todos os direitos reservados