ENTREVISTA - ROGÉRIO ALMEIDA - 26/01/2007

O Rogério é hoje o cearense com mais títulos no esporte motor. Conseguir uma entrevista com ele não foi fácil, pelo fato de recentemente dele ter vencido o rali dos sertões (como navegador na equipe Chevrolet) e ter recebido o “Capacete de ouro”, que seria o “oscar” do esporte motor, concedido pela imprensa especializada nacional e, por isso sua agenda estava cheia. O grande diferencial do Rogério é a sua versatilidade (e competência), pois ele passou pelo motociclismo (motovelocidade, enduro e motocross) e automobilismo (rali de velocidade), e em ambos foi vencedor. Nós que vimos seu início na motovelocidade no final dos anos 80, ficamos gratos em reencontrá-lo e perceber que mesmo depois de tanto sucesso, ainda mantém a simplicidade e os pés no chão.

MR: Como foi a sua história com o motociclismo?
Rogério: Eu morava em Russas e quando eu tinha 10 anos, o meu irmão adquiriu uma Suzuki 100. Eu dei uma volta na garupa com ele e depois ele me mandou ir sozinho.

MR: Corajoso esse seu irmão. Os seus pais não eram contra?
Rogério: só a minha mãe que não gostava muito. Quando eu comecei a andar eu caia muito com a moto parada, pois eu era muito pequeno. Quando eu ia ligar a moto às vezes perdia o equilíbrio e caia. A paixão por moto veio dessa época. Comecei a andar por todo canto e a fazer brincadeiras como empinar, essas coisas.

MR: Você já participava de corridas nessa época?
Rogério: Não, eu só comecei a correr em 1988, na última etapa do motovelocidade. Eu costumava ler muito sobre motociclismo e a acompanhar as corridas de cross quando começaram a acontecer aqui em Fortaleza.

MR: Quando você veio para Fortaleza?
Rogério: Em 83, nessa época eu era adolescente e dei uma parada nos estudos. Eu morava com os meus irmãos e o meu irmão mais velho disse que se eu não queria estudar teria que ir trabalhar. Dessa forma eu fui trabalhar com motos em uma revenda autorizada Yamaha de mecânico, na oficina da Sanauto.

MR: Nessa época você tinha moto?
Rogério: Não, só bicicleta, mas andava nas motos dos clientes quando ia testá-las. Depois a Sanauto fechou e eu voltei a estudar. Fui para a Escola técnica, onde fiz o curso de mecânica.

MR: E de quem você se lembra desse tempo?
Rogério: um dos primeiros nomes que eu me recordo é o Wanderley, que era antes da época das DT’s e das XL 250, depois vieram o Mano Rola, que hoje corre na Copa Corsa, o Francisco Ventura, e começaram a aparecer alguns nomes como o Nelsão, que foi um dos que dominou esse circuito por aqui. Depois apareceram o Russo, o Cláudio Ceará, o Carlinhos.

MR: O Russo é dessa época?
Rogério: É, o Russo vai fazer vinte anos de motociclismo, vocês têm que fazer uma homenagem para ele, pois é um dos grandes nomes do motociclismo cearense.

MR: Não se preocupe, ele está na nossa lista.
Rogério: As corridas começaram na praia do futuro, depois foram para o circuito vermelho, um aterro de barro na Av. Santos Dumont, foi lá onde eu vi as corridas mais bonitas da minha vida.

MR: Pelo que vejo você acompanhou de perto o motocross.
Rogério: A época áurea do motocross foi no Jenipabu, que tinha uma infra-estrutura muito boa, era cercada, tinha box, chuveiro, banheiro. Era a época do João Antonio, da Jhonny Motos, que teve um acidente sério teve correndo, parou de correr, mas deu uma força muito grande ao Cláudio Ceará. Foi ele quem levou o Cláudio Ceará para correr no sul do país, o Claudinho, com todo talento que tinha foi longe, ele tinha nível para correr até no mundial.

MR: Nessa época você só acompanhava as corridas, e quando você começou a correr?
Rogério: Em 88 esfriou o motocross e vieram as corridas de motovelocidade. Eu tinha uma CG, mas não tinha condições de bancar uma corrida. A tribo do motocross veio para a motovelocidade, eram o Riamburgo, Gladstone, Russo, Riamburgo e o Cláudio Ceará. Tinham muitos pilotos bons. Tinha o Nego, que corria pela Unimaq, o Valmir, o Mazinho, o Paulista.
Na ultima etapa de 88 um dos pilotos, o Dilmar Maia, machucou o pé e me convidaram para andar na moto. Andei no sábado à tarde no domingo corri. Mesmo assim cheguei em sexto.

MR: Nada mal a sua estréia.
Rogério: Em 1988 a Protec Turismo tinha uma moto de corrida, um carro de Fórmula Ford e um de Turismo, em 89 eles colocaram duas motos e convidaram o Valmir e a mim. Teve lançamento de equipe, foi um evento bem legal. Naquela época tinham duas categorias A para os veteranos e B para os novatos, mas todo mundo largava junto. Eu comecei na B. A primeira prova, essas cenas nunca saem da minha cabeça, eram quatro ou cinco motos sempre andando juntos e em cada volta era um piloto diferente na frente. A primeira etapa foi assim, super disputada. O público vinha em peso, era lotado o autódromo. O Valmir ganhou e eu fui o segundo.


MR: Quem eram “os caras” que andavam na frente nessa época?
Rogério: eu e o Valmir (Protec), o João (Mesbla Motos), o Mazinho (Ceará Motos) e o Nego (Unimaq).

MR: E os resultados?
Rogério: ganhei a categoria estreante e a geral e em 89 fui bi-campeão. Gostaria de registrar aqui o meu agradecimento ao pessoal da Protec. Eles foram fantásticos com a gente, eram o Baú e o Sérgio Gouveia, eles sempre me diziam: “Rogério faça o melhor que vai dar tudo certo” Isso foi muito valioso para gente Não tinha pressão nenhuma. Graças a eles que entrei no mundo do esporte motor. Em 90 o pessoal da Protec nos levou para o Cerapió, foi o meu primeiro enduro, fui junto com o Valmir, nós fomos na categoria de duplas novato e chegamos na segunda colocação.

MR: E depois da motovelocidade?
Rogério: Em 90 também comecei a participar do enduro de regularidade e fui campeão na categoria estreante. Em 91fiz o Campeonato Cearense de Rali (de carros) com o Fernando, como navegador, era o RCC, onde fomos campeões, mas não época não gostei muito da experiência. Nas motos participei na categoria principal de enduro(graduados) onde fui campeão. No Cerapió participei, em dupla com o Nei e ficamos em segundo na categoria novatos. Em 92, fui na categoria máster, foi o primeiro ano de Cerapió como etapa do campeonato brasileiro de enduro, tava toda a nata do enduro brasileiro, todos os campeões estavam aqui e eu ganhei. Foi a primeira vez que um cearense ganhou uma etapa do campeonato brasileiro. No campeonato cearense de enduro de 90 a 95 só teve dois vencedores de enduro: eu e o Valdson, eu fui em 90, 91, 93 e 95. Em 97 eu fiz o primeiro rali de velocidade de moto na categoria marathon o RN 1500.

MR: Que categoria era essa?
Rogério: é para motos de quatro tempos com cilindrada menor que 350cc. Até o último dia eu estava na briga na geral, mas tive um pneu furado e acabei chegando em terceiro.

MR: E no motocross, como foi a sua experiência?
Rogério: Embora eu tenha sido vice-campeão em 96, eu não gostei muito do clima, eles não eram tão unidos quanto o pessoal do enduro. Era uma coisa estranha. O motocross nunca evoluiu porque é uma tribo muito desunida. Excluo dessa lista o Russo, o Cláudio Ceará, e alguns poucos.

MR: E a sua experiência nos Rali dos Sertões?
Rogério: começou em 2000, através do Riamburgo, que me convidou para participar do campeonato brasileiro. Em 2002 nós fomos para a GM para a equipe oficial. Foi uma etapa muito legal, mas muito difícil o carro era novo e acabamos ficando em quinto no “Sertões”. Em 2004 houve uma modificação na equipe, o Riamburgo não renovou e eu fui convidado pela GM para continuar na equipe. Foi um grande momento na minha carreira, passei a andar com o paulista Edu Piano. Este ano (2005) está sendo um ano fantástico, nós ganhamos o Rali dos Sertões em agosto, e semana passada fomos indicados para o maior prêmio do automobilismo nacional: O Capacete de Ouro, que é uma premiação organizada pela revisa Racing. Na premiação estava toda a na do automobilismo nacional. Foi inacreditável.

MR: Falta realizar mais algum sonho?
Rogério: Tem o rali Paris-Dakar, que seria muito difícil de concretizar por causa do alto custo.
MR: vamos ver. Pelo que vimos você tem o potencial para chegar lá. Boa Sorte!

O currículo do super-campeão:

Motovelocidade: bi-campeão 1989-1990
Enduro: tetra-campeão (1990-1991-1993-1995)
Motocross – vice-campeão 1996
Rally de velocidade RN: campeão em 1997
Rally de Regularidade: tetra-campeão (1991-2001-2002-2005)
Rally Piocerá: tetra-campeão (92 motos; 2001- 2003 carros)
Rally dos Sertões: Campeão em 2005.
Capacete de Ouro: melhor navegador off-road 2005

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