ENTREVISTA - WANDERLEY BARRETO - 10/08/2006

Wanderley Barreto é o grande responsável pela introdução do motocross aqui no Ceará. No final da década de 70 ele construiu pistas e organizou provas em Fortaleza e em cidades do interior. Uma pessoa tenaz e obstinada e um piloto campeão. Atualmente com o seu bar e restaurante Arreégua ele continua fazendo sucesso, só que agora no mundo dos negócios. Nessa edição, tivemos a chance de rever com ele essa história de luta e conquistas para o motocross cearense.

MR: Fazia tempo que estávamos querendo falar com você. Afinal, pelo que soubemos você foi o precursor do motocross aqui no estado do Ceará.
WB: É verdade, eu trouxe esse esporte da Paraíba, na época eu morava lá. Quem começou o motocross no Nordeste foi o pessoal da Paraíba. Tinha uns caras lá que praticavam o motocross, Roberto Santiago, Garibaldi depois Fernando Potó, Olavo Cruz, todos eles eram feras. Não era brincadeira. Eu vi lá e trouxe para cá. 
MR: Quando foi isso?
WB: em 77, 78. Eu tinha uns 20 anos na época. Achava tudo aquilo o máximo, as motos, o barulho, a adrenalina, era demais.
MR: Na época tinha algum clube ou associação que apoiasse ou organizasse as corridas?
WB: Não, na época não tinha nada. Clube, Federação, moto, pista, nada. Tive que começar do zero. Foi tudo feito no peito e na raça.
MR: Verdade? Então foi uma verdadeira loucura.
WB: Eu era apaixonado pelo esporte e fiz tudo do nada, as pistas, a divulgação na imprensa. Eu ia atrás e as coisas acabaram acontecendo. Eu era jovem, e nessa idade você tem coragem para fazer tudo.
MR: E quanto aos seus familiares, não teve nenhum problema?
WB: Não, eu casei jovem, e sempre tive meus negócios. Na época eu e minha esposa trabalhávamos com artesanato. Ela sempre me apoiou.
MR: Como foi a primeira corrida?
WB: Foi inesquecível. Tinha uma multidão enorme na praia do futuro. Eu consegui que a imprensa fosse cobrir, e foi muito divulgado. Na época falei com o Edilmar Norões que deu o maior apoio.
MR: Você tem fotos ou reportagens de jornais dessa época?
WB: Tenho, estão todas aqui vou lhe mostrar.
MR: Ele nos mostra uma quantidade incrível de reportagens de jornais e mais de uma centena de fotos. Incrível! Até hoje nunca tínhamos tido acesso a tanta informação, a maioria das pessoas não guarda devidamente a as suas fotos e acabam perdendo com o tempo. Pelo que vimos nas fotos as corridas foram um sucesso!
WB; Pois é, acabamos fundando um motoclube, o pessoal de Recife e da Paraíba também tinham o seu.
MR: Quem eram as pessoas que apoiavam o esporte nessa época, tinha o Zé de Souza, o Jet, que já morrreu, não lembro bem me bateu um branco.
MR: Aonde foi construída a primeira pista de motocross aqui no Ceará?
WB: No final da Av Santos Dumont lá embaixo do lado esquerdo. Eu tenho a foto da primeira corrida. Depois teve o barro vermelho. Fui eu quem fez essas pistas. Eu fico emocionado em rever essas fotos.
MR: E quanto às motos e equipamentos de segurança?
WB: Quanto às motos, cada um corria com o que tinha. Não tinha diferença de cilindrada, até porque eram poucas as motos e os pilotos. Os equipamentos a gente conseguia com amigos no exterior, era muito trabalhoso. Pelas fotos, principalmente as mais antigas você percebe que não tinha equipamento nenhum, hoje seria impensável correr assim.
MR: E quanto aos acidentes, você teve algum?
WB: Tive, quebrei perna, pé, clavícula. Coisas do esporte. Uma vez ganhei uma corrida em Pernambuco mesmo com o tornozelo quebrado. Foi uma loucura.
MR: E quem eram as feras naquela época?
WB: Tinha o pessoal da Paraíba e Pernambuco, que eram bem mais adiantados que nós. O esquema na Paraíba era quase profissional, lá eles levam o motocross a sério. Mas mesmo assim a gente ia lá fora e ganhava as corridas. A coisa pegava fogo, pois eles não aceitavam perder para alguém de fora. Teve uma corrida que eles ficavam jogando cocos em mim, era um negócio pesado. A torcida de lá era fanática mesmo. Tinha um cara em Mossoró, o Roberto. Em Pernambuco tinha o Nicolau e na Paraíba o Ylton Veloso (o Paraibinha), que era um grande cara.
WB: Nós nos lembramos dele. Era uma pessoa muito querida no esporte.
MR: Estamos vendo aqui nas fotos que você usava o número 300.
WB: Eu comecei com o 7 depois usei o 15 e finalmente o 300 e fiquei com ele até o fim, pois ninguém queria esse número.
MR: Aqui nas fotos você aparece como piloto da Mesbla Moto, quando foi isso?
WB: Foi uma época bem legal em 83, tinha moto, passagem para as viagens, tinha tudo. Eram dois pilotos, eu aqui no Ceará e o Ylton Veloso na Paraíba.
MR: Fora as corridas na Paraíba e Pernambuco você correu mais aonde?
WB: Corri uma vez em São Paulo (tirei o quarto lugar), e em belo Horizonte.
MR: E o seu treinamento como era?
WB: A maioria das pessoas acha que as coisas aconteceram facilmente, mas não, eu acordava cedo e ia treinar. Às vezes treinava até ao anoitecer. Não era mole não.
MR: Quem cuidava da sua moto?
WB: Era o Toinho. Quando eu parei de correr ele ficou trabalhando com o Cláudio Ceará.
MR: Você chegou a correr com o Cláudio Ceará?
WB: Não, quando ele começou eu já estava parando e ele corria  na época com motos nacionais. Eu vi algumas corridas deles, ele era fantástico.
MR: Você correu até quando?
WB: Até 84, mas em 86 ainda brinquei um pouco na pista de Jenipabu.
MR: Ainda tem contato com moto?
WB:Muito pouco. Recentemente andei me machucando, e resolvi parar.
MR: Wanderley, obrigado. Foi um prazer lhe conhecer.

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